sexta-feira, 11 de abril de 2008

• Tá quase

Mais um pouco e perderei um grande amigo.
Vai fazer uma falta impensável. Eu tento me acostumar com a idéia da finitude das coisas, mas é difícil. Mesmo a aceitação da minha própria, fácil de ser dita quando se é jovem e presunçosamente conta-se com a distância do tempo, é irrisória perto desse aprendizado forçado de enterrar entes queridos.
Acostumar-se sem endurecer o coração? Sei não. De qualquer modo, quero continuar meu apego apesar das perdas, pagar o preço por falta de opção melhor e porque viver envolve seu fim.
Só perde quem teve. Dói pra cacete, mas é melhor que o vazio.
De qualquer forma ele chega; vem quando eles se vão.
Mas Amar é mais que prorrogá-lo. Vai além do interlúdio entre o pó e o pó.

***

Pra onde vai aquela altivez toda às nove da manhã? Sua simpatia para com as dores do caminhão de gás?
Cara simpático, é inegável. Bonachão. Farrista, botava panos quentes nas brigas ciumentas. Ariano orgulhoso, pacífico. Também, não tinha porque estressar: harém exclusivo, comilança, privilégios. Puta vidão. Não sei como vai ficar aquela escada-pedestal, sem ele, que espasma lá fora e quis recolher-se.
É. Vou enterrar muita gente, meus mais velhos, meu pai, minha mãe. Muitos amigos, real e simbolicamente. Vi e verei mais mortes, até virar eu mesmo uma lenda sobre mim e um testemunho fóssil para gerações que mal me saberão Eu - talvez pelo prisma de uma profissão antiga, como ser avô num quarto ao lado que bem daria uma ótima sala de video se eu não estivesse lá. Terei tempo para adivinhar o que meus anciãos passam e passaram. Mas hoje meu olhar vai pra ele, só pra ele e pra saudade dele que já flui em gemido, marcada e fina como sua respiração frágil.

***

Já dei meu beijo. Já dei meu tchau. Esses tchaus podem durar horas, mas não adianta: são desejos de reencontro da minha mente arredia que sabe-se fútil.
Provavelmente vou matá-lo em nome de sua paz. É um crime que cometerei sem medo se significar descanso. Há alguém que não merece desandar sobre as próprias fezes e por ele eu me nego a qualquer egoísmo. Porque foi o máximo. Porque foi O Cara. Porque me deu, nesses poucos anos, a mais íntegra pureza que jamais terei, posto que gente. Ele me olhou nos olhos e eu entendi. Ele disse:
"Guarda a sinfonia de uivos na memória e ri quando o caminhão do gás passar".
Guardo sim, amigo. Guardo também nossas lutas de sumô, tu com meio quilo nas minhas mãos, enfrentando bravamente meu polegar-leviatã. Guardo e corro o salgado no rosto que eu, macaco latino e chucro, só deixo rolar a quem muito merece.
Amanhã decidiremos tua hora. A hora em que eu, nesse momento de tantas perdas paralelas, só terei peito pra chorar a sua.
Queria que mais me fizessem tão piegas quanto você acaba de fazer.
Vou uivar pra você esta noite e junto da nossa alcatéia, lamentar.
Obrigado por adotar-me, Amigo.

7 comentários:

웃 Mony 웃 disse...

Sinto muito...
Também gosto dele.
Viveu com dignidade e merece partir levando-a consigo...
Saudade só sente quem viveu bons momentos. Lembra sempre disso. ;)
Conta com a minha comapnhia e meio apoio sempre.
Também vou uivar quando passar o caminhão de gás...

Vinícius Castelli disse...

Dentr as nossas tatntas conversas deste último mês, você me fez lembrar de algo importante.

Vale a pena sofrer sim, pois só sofre quem viveu DE VERDADE, só perde algo, quem TEVE pra valer.

O bom é que quando a dor passa, olhamos para trás e nos orgulhamos de nós mesmos, por termos vivido.

Permita-se, sempre.

Anônimo disse...

Enquanto há vida, há esperança.

Karin disse...

Denis, quisera todos esses pequenos grandes seres que são capazes de virar nosso amigos tão queridos tivessem, na hora de suas partidas, alguém para demonstrar agradecimento, cuidar de suas mazelas e carinhosamente dizer o adeus quando este é inevitável. Assim como fostes feliz com o teu amigo, garanto que ele foi feliz com você. Que seja este o sentimento associado à sua lembrança.

Beijo

Mario Ferrari disse...

AAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUUAUAUUUUUUUUAUUAAAAAUAUAUAUAUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU
AUAUAUUUUUUUauuauauuauauUUUUAuuauauuauauauuauauuauauuauauua
auauauuauauuauauauauauauuauauauuauauauauauauauauuuauauauauuuuuuuuuu
uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu..........
Um beijo canino, para ele
e pra ti.

Anônimo disse...

Não sei se existe essa coisa de "morte honrosa". Tudo que se pode, nessa hora, é torná-la menos feia e dolorosa. É só.

Walter

Kamilah disse...

=(